A promessa era simples: menos erros, mais justiça. Mas desde que o VAR chegou ao futebol brasileiro, em 2017, o que não faltou foram polêmicas, áudios divulgados de madrugada e árbitros afastados. O caso mais recente, o gol anulado do Vasco contra o Paysandu na Copa do Brasil 2026, é apenas mais um capítulo de uma história que o torcedor brasileiro já conhece bem demais.
O caso que reacendeu o debate
Na Copa do Brasil 2026, o Vasco avançou sobre o Paysandu com vitória por 2 a 0, mas o jogo ficou marcado por um gol anulado após revisão do VAR. O atacante Nuno Moreira balançou a rede depois de jogada de Brenner e a árbitra de vídeo Daiane Muniz flagrou uma falta na origem do lance.
O árbitro de campo Ramon Abatti Abel foi ao monitor e concordou. O áudio divulgado pela CBF foi direto: ” Ó lá, ó o puxão. Ok, ele puxa o zagueiro e derruba. Ok, vou voltar com a falta.”
O técnico Renato Gaúcho discordou publicamente da decisão, mesmo que o Vasco tenha saído com a vitória.
⚠️ CBF divulga áudio do VAR do gol anulado do Vasco contra o Paysandu:
VAR: "Ele está segurando a camisa do defensor em todo momento. O defensor é deslocado."
Árbitro: "Ele claramente puxa e derruba o zagueiro. Vou voltar com falta."
Em 2025, num clássico entre São Paulo e Palmeiras pelo Brasileirão, dois lances viraram caso nacional: um pênalti e um pedido de expulsão. A CBF chegou a liberar os áudios da cabine para tentar conter o incêndio, mas não adiantou.
Os árbitros envolvidos foram afastados logo após a partida e a punição confirmou o erro, mas chegou tarde demais para mudar o resultado. Inclusive, o mesmo Ramon Abatti Abel estava no centro da polêmica.
Foto: Montagem ESPN/Reprodução
O erro foi da câmera, não do árbitro
Em 2021, no Brasileirão, o Internacional marcou um gol de Rodrigo Dourado validado pelo VAR, mas a linha de impedimento usada na análise estava descalibrada. O erro não foi humano, foi técnico e a ferramenta que deveria garantir precisão funcionou com defeito.
O gol valeu, o caso ficou registrado como um dos maiores escândalos envolvendo falha tecnológica do VAR no Brasil e abriu um debate que dura até hoje sobre a confiabilidade do sistema.
Foto: Reprodução
A partida mais polêmica de 2019
No primeiro ano do VAR no Brasileirão, Botafogo x Palmeiras pela 6ª rodada do Brasileirão já entregou o tom do que estaria por vir. Deyverson foi derrubado na área, o árbitro nada marcou e o jogo foi reiniciado. Mesmo assim, o VAR recomendou a revisão e o árbitro Paulo Roberto Alves foi ao monitor para marcar a penalidade.
O Botafogo contestou no STJD, já que o jogo já tinha sido reiniciado, mas o time carioca não conseguiu anular a partida. O caso virou referência nos debates sobre os limites da intervenção do VAR no futebol brasileiro.
Divulgação: Palmeiras/Flickr
A ferramenta certa no ambiente errado?
O VAR funciona, mas em doses altas de polêmica, pressão e torcidas organizadas exigindo posicionamento nas redes sociais, ele vira combustível para a guerra de narrativas. O problema do VAR brasileiro talvez nunca tenha sido a câmera, mas sim o que acontece na frente dela.
A lista dos árbitros da Copa do Mundo de 2026 foi divulgada pela FIFA. Segundo a entidade, os nomes foram escolhidos com base em critérios técnicos, físicos e psicológicos, após anos de avaliação e preparação. O processo inclui análise de desempenho, treinamentos específicos e observação em competições internacionais, o que explica a presença de três brasileiros no torneio, algo que não acontecia desde 1950.
O grupo, chamado de “FIFA Team One”, inclui 52 árbitros, 88 árbitros assistentes e 30 árbitros de vídeo, provenientes de todas as seis confederações e 50 Associações, e é a formação mais completa de árbitros da história da Copa do Mundo.
O Brasil será o país com maior número de representantes na arbitragem do Mundial. Os árbitros Raphael Claus, Ramon Abatti Abel e Wilton Pereira Sampaio foram selecionados para a Copa de 2026. Claus e Sampaio já têm experiência em Copas anteriores, enquanto Abatti Abel fará sua estreia após participações recentes em competições relevantes.
Além deles, o país também terá representantes entre assistentes e árbitros de vídeo (veja tabela completa abaixo), consolidando a força brasileira no quadro internacional.
Critérios vão além da regra do jogo
A escolha dos árbitros para a Copa não se resume ao conhecimento das regras. A FIFA avalia fatores como controle emocional, leitura tática e capacidade de tomada de decisão sob pressão. Além disso, a entidade considera a personalidade do árbitro e sua habilidade de entender o jogo em diferentes contextos. A leitura das estratégias das equipes também pesa na decisão final. O objetivo é montar um quadro que consiga lidar com partidas de alto nível, com jogadores de diferentes culturas e estilos.
Pierluigi Collina, ex-árbitro que apitou a final da Copa do Mundo de 2002 e atual diretor de Arbitragem da FIFA e presidente do Comitê de Árbitros da FIFA, afirmou: “Os árbitros selecionados são os melhores do mundo. Eles faziam parte de um grupo maior de árbitros que foi identificado e monitorado nos últimos três anos. Participaram de seminários e atuaram em torneios da FIFA. Além disso, seus desempenhos em partidas nacionais e internacionais foram avaliados regularmente. Os árbitros selecionados receberam, e continuarão a receber, apoio integral de nossos preparadores físicos e equipe médica, incluindo fisioterapeutas e um especialista em saúde mental. Nosso objetivo é garantir que estejam em ótimas condições físicas e mentais quando começarem o trabalho”, destacou Collina.
Brasil terá o maior número de representantes na arbitragem da Copa do Mundo de 2026
Experiência pesa — mas não garante vaga
A seleção começa muito antes do Mundial. Os árbitros passam por ciclos de preparação com treinamentos técnicos, físicos e teóricos organizados pela FIFA. Ter histórico em Copas ajuda, mas não é garantia de convocação. A FIFA prioriza o momento atual e a consistência recente dos árbitros.
Casos de desempenho irregular ou erros em jogos importantes podem impactar diretamente na escolha final, mesmo para nomes experientes.
Por outro lado, árbitros em ascensão, com boas atuações em torneios recentes, ganham espaço — como é o caso de do estreante brasileiro Abatti Abel, que conseguiu estar na lista mesmo após um erro considerado gravíssimo no Brasileirão 2025, na partida entre São Paulo e Palmeiras.
🌍Distribuição global: uma Copa realmente mundial
A lista final da FIFA confirma uma arbitragem amplamente distribuída entre continentes. Europa e América do Sul concentram grande número de árbitros, mas há presença significativa da África, Ásia, América do Norte e até federações menos tradicionais, como Somália e Mauritânia.
Ao todo, 50 países estarão representados, o que reforça a estratégia da FIFA de internacionalizar a arbitragem e evitar concentração regional. Países como Argentina, França, Inglaterra e Brasil aparecem com delegações robustas, enquanto outras nações contribuem com nomes pontuais, especialmente em funções de assistente e VAR.
Esse equilíbrio também ajuda a minimizar conflitos de interesse e amplia a diversidade de estilos de arbitragem dentro da competição.
👩⚖️ Presença feminina cresce, mas ainda é limitada
A Copa de 2026 terá árbitras mulheres em diferentes funções. Entre os destaques estão Tori Penso (Estados Unidos) e Katia Garcia (México) como árbitras principais, além de assistentes como Brooke Mayo, Kathryn Nesbitt e Sandra Ramirez, e a presença de Tatiana Guzman no VAR.
No total, são 2 árbitras principais, 4 assistentes e 1 profissional de VAR, representando três países: Estados Unidos, México e Nicarágua.
O número mantém a tendência iniciada na Copa do Mundo FIFA de 2022, que contou pela primeira vez com árbitras mulheres em jogos do masculino. Apesar do avanço, a presença feminina ainda é minoritária em relação ao total, indicando evolução gradual — mas longe de um cenário de equilíbrio.
Árbitra norte-americana Tori Penso será uma das representantes femininas no apito da Copa
Arbitragem também é estratégia
A definição do quadro de arbitragem leva em conta até mesmo o equilíbrio entre confederações e nacionalidades. Isso evita conflitos de interesse e garante maior neutralidade nas partidas, especialmente em fases decisivas. Na prática, a arbitragem da Copa é resultado de um processo tão estratégico quanto a convocação de jogadores.
Na Copa do Mundo, o árbitro não apenas aplica regras. Ele gerencia o jogo, controla o ritmo e precisa lidar com pressão de atletas, comissões e torcidas. Por isso, a FIFA trata a arbitragem como parte essencial do espetáculo — e investe cada vez mais em tecnologia, como o VAR, e na preparação dos profissionais.
Veja a lista completa de árbitros e assistentes da Copa de 2026
No total são 52 árbitros, 88 assistentes e 30 árbitros de vídeo de 50 Federações
🇸🇦 Arábia Saudita Khalid Al Turais (Árbitro) Abdullah Alshehri (VAR) Mohammed Al Abakry (Assistente)
🇿🇦 África do Sul Abongile Tom (Árbitro) Zakhele Siwela (Assistente)
🇩🇪 Alemanha Felix Zwayer (Árbitro) Bastian Dankert (VAR) Christian Dietz (Assistente) Robert Kempter (Assistente)
🇪🇸 Espanha Alejandro Hernandez (Árbitro) Carlos Del Cerro Grande (VAR) Jose Enrique Naranjo Perez (Assistente) Diego Sanchez (Assistente)
🇺🇸 Estados Unidos Ismail Elfath (Árbitro) Tori Penso (Árbitro) Joe Dickerson (VAR) Armando Villarreal (VAR) Kyle Atkins (Assistente) Brooke Mayo (Assistente) Kathryn Nesbitt (Assistente) Corey Parker (Assistente)
🇫🇷 França Francois Letexier (Árbitro) Clement Turpin (Árbitro) Jerome Brisard (VAR) Nicolas Danos (Assistente) Cyril Mugnier (Assistente) Benjamin Pages (Assistente) Mehdi Rahmouni (Assistente)
🇬🇦 Gabão Pierre Atcho (Árbitro) Amos Abeigne (Assistente) Boris Ditsoga (Assistente)
🇳🇱 Holanda Danny Makkelie (Árbitro) Rob Dieperink (VAR) Dennis Higler (VAR) Jan De Vries (Assistente) Hessel Steegstra (Assistente)
🇭🇳 Honduras Hector Said Martinez (Árbitro) Walter Lopez (Assistente) Christian Ramirez (Assistente)
🏴 Inglaterra Michael Oliver (Árbitro) Anthony Taylor (Árbitro) Jarred Gillett (VAR) Gary Beswick (Assistente) Stuart Burt (Assistente) James Mainwaring (Assistente) Adam Nunn (Assistente)
🇮🇹 Itália Maurizio Mariani (Árbitro) Marco Di Bello (VAR) Daniele Bindoni (Assistente) Alberto Tegoni (Assistente)
🇯🇲 Jamaica Oshane Nation (Árbitro)
🇯🇵 Japão Yusuke Araki (Árbitro) Jun Mihara (Assistente)
🇯🇴 Jordânia Adham Makhadmeh (Árbitro) Mohammad Al Kalaf (Assistente) Ahmad Al Roalle (Assistente)
🇲🇦 Marrocos Jalal Jayed (Árbitro) Hamza El Fariq (VAR) Mostafa Akarkad (Assistente) Zakaria Brinsi (Assistente)
🇲🇷 Mauritânia Dahane Beida (Árbitro)
🇲🇽 México Katia Garcia (Árbitro) Cesar Ramos (Árbitro) Erick Miranda (VAR) Guillermo Pacheco (VAR) Marco Bisguerra (Assistente) Alberto Morin (Assistente) Sandra Ramirez (Assistente)
🇳🇮 Nicarágua Tatiana Guzman (VAR) Antonio Pupiro (Assistente)
🇳🇴 Noruega Espen Eskas (Árbitro) Isaak Bashevkin (Assistente) Jan Erik Engan (Assistente)
🇳🇿 Nova Zelândia Campbell-Kirk Kawana-Waugh (Árbitro) Isaac Trevis (Assistente)
🇵🇾 Paraguai Juan Gabriel Benitez (Árbitro) Eduardo Cardozo (Assistente) Milciades Saldivar (Assistente)
🇵🇪 Peru Kevin Ortega (Árbitro) Michael Orue (Assistente)
🇵🇱 Polônia Szymon Marciniak (Árbitro) Tomasz Kwiatkowski (VAR) Tomasz Listkiewicz (Assistente) Adam Kupsik (Assistente)
🇵🇹 Portugal João Pinheiro (Árbitro) Bruno Jesus (Assistente) Luciano Maia (Assistente)