Filipe Luís no Monaco e a história dos técnicos brasileiros que ousaram treinar na Europa
Filipe Luís vai ao Monaco e entra num seleto grupo: conheça alguns dos técnicos brasileiros que já ousaram treinar no futebol europeu e o legado de cada um
Filipe Luís é o mais novo técnico brasileiro a cruzar o Atlântico para trabalhar no futebol europeu. Confirmado pelo jornalista Fabrizio Romano e pelo jornal francês L’Équipe, o ex-treinador do Flamengo acertou contrato com o Monaco, da Ligue 1, válido até junho de 2028. Essa será a sua primeira experiência como treinador fora do Brasil. Ele chega ao time francês após negociações com Bayer Leverkusen e Chelsea, que também monitoravam o brasileiro de 40 anos. Com a contratação, Filipe Luís se junta a um seleto grupo de nomes brasileiros que ousaram comandar clubes no futebol europeu.
Filipe Luís: o contexto da chegada
Demitido do Flamengo em março de 2026 após início irregular na temporada, Filipe Luís ficou apenas dois meses livre no mercado antes de receber uma das propostas mais atrativas disponíveis na Europa. O Monaco, oito vezes campeão da Ligue 1, busca reestruturar o projeto esportivo após uma temporada abaixo das expectativas.
Filipe Luís em Flamengo x Lanús – Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Curiosamente, o clube já teve um brasileiro no banco antes: Ricardo Gomes comandou o Monaco de 2007 a 2009, após passagens pelo PSG e pelo Bordeaux. Filipe Luís chega com o desafio adicional de classificar o time para a Champions League 2026/27, algo que o Monaco não conseguiu nesta temporada.
Os brasileiros que foram à Europa e deixaram marca
A história dos técnicos brasileiros na Europa é marcada por momentos de brilho, desafios culturais e o peso de carregar o passaporte do “país do futebol” na beira do campo europeu.
Vanderlei Luxemburgo — Real Madrid (2004/05) A experiência mais midiática. Luxemburgo assumiu o maior clube do mundo com o elenco galáctico: Zidane, Ronaldo Fenômeno, Beckham e Roberto Carlos. Chegou cercado de expectativas, aplicou seu futebol direto e raçudo e saiu sem títulos, menos de um ano depois.
Luxemburgo durante a passagem pelo Real Madrid. Foto: PHILIPPE DESMAZES/AFP via Getty Images
Luiz Felipe Scolari — Chelsea (2008/09) e Portugal (2002–08) Felipão é, provavelmente, o técnico brasileiro de maior impacto na Europa. Levou Portugal à final da Eurocopa 2004 e à semifinal da Copa 2006, feitos históricos para a seleção lusitana. No Chelsea, ficou apenas oito meses, mas o trabalho com Portugal garantiu seu prestígio internacional.
Felipão e CR7 durante treino pela seleção portuguesa. Foto: FABRICE COFFRINI/AFP via Getty Images
Leonardo — Milan (2009/10) e Inter de Milão (2010/11) Em 2009, Leonardo assumiu o Milan como treinador, substituindo Carlo Ancelotti. Entretanto, ele não obteve sucesso, sua permanência durou apenas uma temporada. Além disso, após a sua passagem frustrante, ele surpreendeu a todos quando na temporada seguinte, foi para a rival Inter de Milão, onde trabalhou como técnico por cerca de seis meses e conquistou uma Copa da Itália.
Leonardo durante a sua passagem pelo Milan. Foto: Reuters
Sylvinho — Lyon (2019)e Albânia (2023-2026) Sylvinho ganhou destaque internacional ao assumir a seleção da Albânia e levar o país à Eurocopa, feito celebrado no país. Inclusive, o brasileiro conseguiu classificar a seleção como líder do seu grupo nas Eliminatórias para a Eurocopa de 2024. Sylvinho ainda chegou a ter uma breve passagem pelo Lyon, onde não conseguiu mostrar bons resultados.
Sylvinho comemora classificação da Albânia para a Eurocopa 2024. Foto: UEFA
Ricardo Gomes — PSG, Bordeaux e Monaco (1996–2009) O brasileiro mais longevo na Europa como técnico de clubes de elite. Ricardo Gomes passou mais de uma década atuando na Ligue 1, com passagens em três clubes tradicionais da França. Por lá, ele ganhou duas Copa da Liga Francesa (Bordeaux e PSG) e uma Copa da França (PSG). Uma trajetória que raramente é lembrada com o devido mérito.
Ricardo Gomes à beira do gramado pelo Bordeaux. Foto: /AP
Por que é tão raro?
Por mais de oito temporadas consecutivas, o Brasil ficou sem nenhum técnico nas cinco grandes ligas europeias: Premier League, La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1. A barreira não é técnica: é cultural e de mercado. O futebol europeu privilegia nomes conhecidos localmente, e o histórico de passagens relâmpago de brasileiros criou um estigma difícil de quebrar.
Filipe Luís chega em um momento diferente. Tem 40 anos, foi campeão da Libertadores como técnico do Flamengo em 2025, e construiu uma reputação sólida antes de cruzar o oceano. Se der certo no Monaco, pode abrir uma janela que o futebol brasileiro demorou décadas para encontrar.
Em Leipzig, na Alemanha, o Crystal Palace fez o que muita gente duvidava: levantou a taça da Conference League depois de uma noite difícil, mas justa, diante do Rayo Vallecano. O único gol saiu aos 5 minutos do segundo tempo, quando Adam Wharton avançou, chutou de longe e obrigou o goleiro Batalla a soltar nos pés de Jean-Philippe Mateta. O francês não perdoou. Tapinha certeiro, história feita.
A POLÊMICA QUE ANTECEDEU TUDO
Para entender o tamanho dessa conquista, é preciso voltar ao verão de 2025 e a uma novela que envolveu burocracia europeia, um empresário americano e uma arbitragem internacional. O Crystal Palace havia chegado à Europa League como campeão da FA Cup, após vencer o Manchester City na final com gol de Eberechi Eze. Uma façanha histórica para o clube do sul de Londres, que jamais havia vencido um título maior. Só que John Textor, então acionista majoritário, também controlava o Lyon, que havia garantido sua própria vaga na mesma competição.
O regulamento da UEFA proibia que uma mesma pessoa tivesse influência decisiva sobre dois clubes disputando a mesma competição, e o prazo para regularização era 1º de março de 2025. Naquela data, com a FA Cup ainda nas oitavas de final, ninguém apostava que o Palace seria campeão.
Em 11 de julho de 2025, a UEFA decidiu: o Palace estava fora da Europa League e rebaixado para a Conference League. Os dirigentes do clube viajaram à Suíça, John Textor e Steve Parish pessoalmente foram argumentar que o americano não exercia “influência decisiva” nas decisões esportivas. Não adiantou. Textor vendeu sua fatia de 43% no clube para Woody Johnson, dono do New York Jets, mas já era tarde demais. O que importava era o retrato tirado em 1º de março, e naquele retrato o Palace estava em infração.
O CAS (Tribunal Arbitral do Esporte) chancelou a decisão da UEFA, e o Palace foi obrigado a aceitar o rebaixamento para a terceira divisão continental. A frustração foi enorme, afinal, o clube havia conquistado o direito de jogar a Europa League em campo, não em uma sala de escritório. A sensação de injustiça ficou rondando Selhurst Park durante meses.
A VINGANÇA COM SABOR DE TAÇA
Mas o futebol é assim. Às vezes a porta que fecha esconde uma janela maior do outro lado. O Palace entrou na Conference League como um clube que tinha algo a provar, e foi exatamente essa fome que norteou a campanha. A eliminação do Shakhtar Donetsk por 5 a 2 no agregado nas semifinais mostrou a potência do time quando operava em alta intensidade. Nenhuma equipe os eliminou no caminho até Leipzig.
Oliver Glasner, que havia anunciado em janeiro que deixaria o clube ao fim da temporada, se despediu com chave de ouro. O austríaco acumulou três títulos em dois anos e meio no cargo: a FA Cup de 2025, a Community Shield sobre o Liverpool e agora a Conference League. Ele transforma “o clube que nunca ganhou nada” em “o clube que ganhou três títulos em dois anos”.
Dez anos, 20 títulos e dever cumprido: o fim da era mais dominante do futebol inglês
Guardiola decide deixar o Manchester City após 10 anos e 20 títulos. Enzo Maresca é o substituto confirmado. Despedida será contra o Aston Villa no dia 24.
Com o fim da temporada 2025/2026 do futebol europeu, Pep Guardiola e Manchester City encerram uma das eras mais dominantes da história do futebol moderno. O treinador espanhol de 55 anos confirmou as expectativas e fez a sua despedida oficial no jogo de encerramento da Premier League, contra o Aston Villa (derrota por 2×1), no Etihad Stadium. Guardiola tinha contrato até junho de 2027, mas optou por antecipar a saída em um ano, por decisão própria. O substituto já está definido nos bastidores: é o italiano Enzo Maresca, ex-Chelsea.
A decisão e o timing
A saída não foi uma surpresa total. Desde dezembro de 2025, o próprio Guardiola havia deixado sinais públicos de que poderia encerrar o ciclo: “Sou um cara esquisito, muito esquisito, e talvez eu acorde de manhã e diga: estou indo embora. Tchau, tchau!”
Em março de 2026, após a eliminação para o Real Madrid na Champions League, voltou a brincar com o tema: “Um dia eu vou chegar aqui e dizer: Tchau, pessoal! E ainda estou aqui.” O clube afirmava oficialmente esperar que ele permanecesse, mas os preparativos internos para a saída já estavam em andamento há semanas. No fim do jogo com o Villa, homenagens para Pep e para vários jogadores que nem estão mais no clube, como o goleiro brasileiro Ederson, mas que fizeram parte da trajetória mais vitoriosa dos últimos anos.
Pep Guardiola à beira do gramado durante jogo da volta da semifinal da Champions, em 2022. Foto: PAUL ELLIS / AFP
Dez anos, uma dinastia
Guardiola chegou ao Manchester City em julho de 2016, vindo do Bayern de Munique, e transformou um clube já rico em uma máquina de títulos sem precedentes na Premier League. Em dez temporadas, conquistou 20 títulos pelo City, incluindo seis ligas inglesas, uma Champions League e um Mundial de Clubes.
O auge foi a temporada 2022/2023, com a conquista da tríplice coroa histórica, Premier League, FA Cup e Champions League, façanha que colocou o City no panteão dos maiores clubes da história. A campanha de 2025/2026, mesmo sem o título da Premier League, ainda rendeu a League Cup e a FA Cup ao clube.
Pep Guardiola conquistou seu 20º troféu na Inglaterra. Foto: EFE
Maresca: o herdeiro que conhece a casa
Enzo Maresca não é um estranho no Etihad. O italiano de 46 anos foi auxiliar de Guardiola no próprio Manchester City na conquista da Tríplice Coroa, em 2022/2023, antes de seguir carreira solo pelo Leicester, onde conquistou o acesso à Premier League, e depois pelo Chelsea.
No Chelsea, levou o clube ao título do Mundial de Clubes da FIFA em 2025, mas foi demitido em janeiro de 2026 após resultados inconsistentes na Premier League. Desde então, estava sem clube e aguardando exatamente essa chamada. O diretor de futebol do City, Hugo Viana, liderou as negociações.
Enzo Maresca vai substituir Pep Guardiola no Manchester City. Foto: Getty Images
O que esperar da era pós-Guardiola
Substituir Guardiola é, provavelmente, a missão mais ingrata do futebol mundial. Nenhum clube que passou por mudança semelhante, como Bayern de Munique e Barcelona, manteve o mesmo nível imediatamente. O City sabe disso, por isso a escolha por Maresca faz sentido: alguém que conhece a filosofia, o vestiário e a estrutura do clube.
Mas o Etihad, a partir de julho de 2026, será um lugar diferente. Pep Guardiola transformou Manchester City em referência global de futebol. Agora, o clube enfrenta o maior desafio da sua era moderna: continuar vencendo sem ele.
A cena aconteceu em Lima, na vitória do Palmeiras por 2 a 0 sobre o Sporting Cristal. No momento em que Flaco López abria o placar e fazia sinal de positivo para a comissão técnica, Abel Ferreira retribuiu com o dedo errado, o do meio. A Conmebol não perdoou: abriu processo disciplinar e o Palmeiras tem até 13 de maio para apresentar defesa. A multa pode chegar a US$ 25 mil.
Depois da partida, Abel explicou com a sinceridade que é sua marca: Flaco é o jogador que mais “leva na cabeça” dele, recebe vídeos no WhatsApp e instruções de manhã, tarde e noite. O gesto, segundo o português, foi um ato de afeto. Algo entre pai e filho. Dentro do clube, o episódio foi tratado como brincadeira. Do lado de fora, as crianças que assistiam ao jogo com os pais provavelmente ficaram com dúvidas que nenhuma brincadeira explica.
Dois portugueses, dois dedos. Coincidência?
Em maio de 2025, Renato Paiva foi flagrado pelas câmeras erguendo o dedo do meio durante a comemoração do gol de Artur, que deu ao Botafogo a vitória por 3 a 2 sobre o Estudiantes na Libertadores. A internet especulou: seria para a torcida? Para o banco adversário? Para o árbitro? Paiva foi ao microfone e revelou que a culpa era de um auxiliar insistente que queria tirar Artur de campo por desgaste físico. Quando o atacante marcou, o técnico mandou o recado ao colega: “eu disse”.
Foto: Reprodução TV Globo
Paiva saiu ileso. Apresentou um currículo de fair play (uma expulsão em 23 anos, no sub-17 do Benfica) e encerrou o assunto com uma frase que ficou: “Só se eu fosse muito estúpido.” Abel Ferreira repetiu o gesto um ano depois, em Lima, mas dessa vez com câmeras em alta definição, processo aberto e WhatsApp como prova do contexto. O detalhe, no futebol, é sempre a audiência.
Diniz, Luciano e o fim de uma amizade
Em maio de 2024, numa partida entre São Paulo e Fluminense pelo Brasileirão, Fernando Diniz perdeu a paciência com Luciano à beira do campo. O atacante havia feito uma cobrança de lateral rápida enquanto um jogador do Flu estava caído se recuperando. Diniz foi em direção a Luciano e começou a xingá-lo. O atacante pediu para ele parar. Diniz encerrou a conversa dizendo que a amizade entre os dois tinha acabado.
Foto: Guilherme Veiga/Gazeta Press
Luciano, que havia trabalhado sob o comando de Diniz no São Paulo, respondeu na mesma intensidade: “Se ele pensa assim, então para mim também acabou. Eu jamais xingaria ele à beira do campo. Ele precisa entender que não é mais meu treinador.” O futebol tem essa crueldade bonita. Junta pessoas por meses, cria laços, conquistas, memórias, e desfaz tudo em trinta segundos de raiva numa linha de fundo.
A briga, o SMS e o fim de uma era no Chelsea
Antonio Conte cobrava Diego Costa sem parar durante o jogo contra o Leicester em 2017, com o Chelsea já vencendo por 3 a 0. Costa pediu para ser substituído. Conte ignorou e pressionou mais. A discussão foi do gramado para o vestiário, onde os dois precisaram ser separados em clima de “extrema tensão”. Poucos meses depois, Conte comunicou por mensagem de texto que o atacante estava fora dos planos. Uma rescisão por SMS que entrou para a história do futebol como um dos momentos mais frios da relação técnico-jogador.
Foto: Getty Images
Diego Costa, anos depois, resumiu o ambiente num podcast: “Ele não confia em ninguém, acha que sabe tudo, você não aproveita os treinos.” O Chelsea ganhou o título inglês naquela temporada. Raiva e resultado podem andar juntos. Mas o preço foi alto: o jornalista Gianluca Di Marzio apurou que a forma como Conte dispensou Costa foi justamente o motivo pelo qual o clube o demitiu sem pagar a multa rescisória de 10 milhões de euros. Um dedo do meio teria sido mais barato.