Futebol

Do impossível ao impensável: Como o rebaixamento do Leicester para a 3ª Divisão destruiu um dos maiores legados do futebol moderno

O Leicester City transformou em tragédia um dos maiores contos de fadas da história do futebol. O clube confirmou o rebaixamento para a League One, exatos 10 anos após o título da Premier League.

Publicado

em

O Leicester City selou na terça-feira (21/04) um dos declínios mais drásticos da história recente do futebol europeu ao ser rebaixado para a League One, a terceira divisão da Inglaterra. Exatos 10 anos após chocar o mundo com o título da Premier League – considerada por muitos uma das maiores façanhas (e também maiores zebras) da história do esporte moderno -, os “Foxes” confirmaram a queda matemática após empatarem em 2 a 2 contra o Hull City no King Power Stadium.

O resultado deixou o clube na 23ª posição da Championship, sem chances de evitar o descenso a duas rodadas do fim. Mas a queda já era previsível: o clube que viveu um conto de fadas moderno e provou que o impossível não existia, sucumbiu a uma crise de identidade, financeira e técnica.

O milagre que paralisou o mundo

Em 2016, o Leicester liderou praticamente de ponta a ponta a Premier League, mas ainda assim as casas de apostas seguiam pagando 5.000 para 1 para quem acreditasse no título dos “Foxes”. Sob o comando de Claudio Ranieri, um elenco montado com “rejeitados” e jogadores de divisões inferiores derrubou o Big Six e conquistou a Inglaterra. Aquela campanha não foi apenas um título; foi uma lição de resiliência e união que mudou para sempre a narrativa da Premier League, transformando o King Power Stadium no epicentro do futebol mundial.

Jogadores e comissão técnica do Leicester erguem o troféu da Premier League em 2016

A tragédia que mudou o destino

O início do fim para muitos analistas remonta a outubro de 2018, com a trágica morte do multimilionário empresário tailandês Vichai Srivaddhanaprabha em um acidente de helicóptero nos arredores do estádio King Power. Vichai não era apenas o proprietário do Leicester, ele era a alma do projeto e o elo emocional entre cidade e clube. Após sua partida, o Leicester perdeu o norte administrativo.

Queda de helicóptero próxima ao Estádio King Power matou o dono do Leicester em 2018

Embora ainda tenha vencido a FA Cup em 2021 sob o comando de Brendan Rodgers, as decisões financeiras arriscadas de seu filho e herdeiro, Aiyawatt Srivaddhanaprabha, geraram um rombo que culminou em fevereiro com a perda de seis pontos por violação das regras fiscais, o que praticamente decretou o rebaixamento. Além disso, o balanço financeiro de 2023 revelou uma folha salarial superior a 200 milhões de Libras, quase R$ 1,5 bilhão, sem cláusulas de redução em caso de rebaixamento, o que asfixiou as contas do clube. Dono de um império mundial de lojas de Duty Free, Aiyawatt, mais conhecido como “Top”, empilhou prejuízos bilionários durante a Pandemia, e isso acabou se refletindo diretamente na gestão do clube.

Dança das cadeiras no banco de reservas

A instabilidade no comando técnico também acelerou a derrocada dos Foxes nos últimos anos. Desde a saída de Brendan Rodgers em 2023, o clube viu passar nomes como Dean Smith, Ruud van Nistelrooy e Marti Cifuentes, até chegar ao interino Gary Rowett. Com apenas uma vitória em 12 jogos sob a nova direção, a equipe não conseguiu reagir ao impacto da punição financeira e à perda de identidade em campo.

“Uma humilhação sem precedentes”

A imprensa mundial, especialmente a britânica, não poupou críticas após a consumação do rebaixamento. O jornal The Guardian descreveu o rebaixamento como “uma negligência administrativa criminosa”, enquanto a BBC Sport destacou que “o Leicester conseguiu o feito raro de ir do paraíso ao inferno em velocidade recorde”. Nos editoriais de Londres, a queda é vista como o exemplo máximo de como a má gestão pode destruir em poucos meses o que levou décadas para ser construído.

O futuro na League One

Agora, o Leicester City precisará juntar os cacos e se preparar para disputar a terceira divisão pela primeira vez desde a temporada 2008-2009. Com a receita drasticamente reduzida e um elenco inflado, o desafio será uma reconstrução total para não seguir o caminho de outros gigantes que se perderam nas divisões inferiores do futebol inglês. O presidente Aiyawatt pediu desculpas publicamente, assumindo a responsabilidade por decisões que transformaram em pesadelo o maior sonho já vivido por um clube no futebol moderno.

Por onde andam os heróis de 2016?

O abismo entre o passado e o presente fica evidente ao olharmos para os destinos das estrelas do título:

Jamie Vardy: Aos 39 anos, encerrou seu contrato na temporada passada e atua hoje na Cremonese da Itália. Em meio à crise, recusou a aposentadoria no Leicester.

Jamie Vardy em 2016

Riyad Mahrez: Após empilhar títulos no Manchester City, o argelino hoje desfruta dos petrodólares do futebol na Arábia Saudita e vai à Copa com a seleção da Argélia.

N’Golo Kanté: Um dos maiores volantes da história recente, também seguiu para o mercado saudita após uma passagem vitoriosa pelo Chelsea. Retomou protagonismo na seleção francesa e estará em mais uma Copa.

Kasper Schmeichel: O capitão e paredão daquela equipe passou por França e Bélgica, estando hoje perto da aposentadoria no Celtic, da Escócia.

Claudio Ranieri: Hoje com 74 anos, o técnico italiano mais conhecido como o “tinkerman” se aposentou do futebol profissional, deixando seu nome eternizado em uma estátua nos arredores do King Power Stadium.

Claudio Ranieri

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas

Sair da versão mobile